Por Robson Barbosa
A narrativa oficial que acompanha as propostas do GT da Reforma Administrativa insiste que seu objetivo central é aprimorar a percepção do cidadão sobre o Estado, instituindo uma “gestão por resultados” e focando na “satisfação dos usuários”. No entanto, uma análise mais profunda revela uma contradição fundamental: o pacote legislativo prioriza mecanismos de restrição fiscal e de reorganização administrativa que, na prática, tendem a sufocar exatamente os serviços mais essenciais para a população vulnerável.
A dificuldade de conscientização sobre os prejuízos da proposta reside em sua complexidade sistêmica. O cidadão comum, que enfrenta a fila no posto de saúde ou a falta de vagas na creche, percebe o efeito, mas não a causa. O problema não é o servidor na ponta, mas um modelo de estrangulamento financeiro que começa por opções políticas históricas sem respaldo social e agora ganha novos contornos com esta reforma.
Tomemos o exemplo dos prejuízos que essas propostas causarão aos municípios. O Estado brasileiro já impõe um modelo federativo desequilibrado, que atribui enormes responsabilidades aos municípios pela prestação de serviços básicos, mas não lhes destina as receitas necessárias: basta ver o endividamento eterno dos entes subnacionais. Como se não bastasse, desde a Emenda do Teto dos Gastos até o Arcabouço Fiscal, o que se vê é a sobreposição de regras financeiras que inviabilizam a cobertura dos serviços essenciais, dada a subversão da lógica do estado de bem-estar social pelo financeirismo.
O exemplo mais claro e alarmante do foco real da reforma está no Art. 29, III-A, da PEC 38/2025. Este dispositivo impõe aos municípios que apresentarem resultados fiscais negativos uma drástica limitação no número de suas secretarias. Um município com até 10 mil habitantes, por exemplo, só poderia ter 5 secretarias. No jargão técnico, isso é uma reorganização; na vida real, é o colapso da gestão de políticas públicas. Uma secretaria não é um custo burocrático, mas a ferramenta de desconcentração administrativa para que o gestor dê atenção específica a uma política.
Saúde, Educação, Assistência Social, Habitação, Transporte e Cultura são áreas distintas que exigem foco. Ao forçar a fusão dessas estruturas, (transformando, por exemplo, “Assistência Social e Habitação” em uma pasta única para cumprir um limite numérico) a reforma dilui prioridades, sobrecarrega a gestão e torna o acesso do cidadão mais difícil. Ironia ou não, essa medida força exatamente a “percepção negativa do cidadão” que a reforma, no discurso, dizia querer combater.
As novas propostas de “avaliação de políticas públicas” e a criação de um “Conselho de Gestão Fiscal” centralizado, previstas no PLP, reforçam essa lógica. A prometida avaliação de desempenho não trará resultados efetivos para a população se os municípios estiverem administrativamente engessados e financeiramente asfixiados. Nenhuma métrica de eficiência em um hospital funcionará se as regras fiscais centrais cortarem seu orçamento.
A frustração popular com os serviços públicos será novamente depositada sobre o funcionalismo, quando a verdadeira causa do problema não é resolvida: o crônico e intocado problema do serviço da dívida pública, que consome recursos que deveriam financiar as políticas sociais. Os serviços públicos não são a causa do desequilíbrio fiscal. Comparado aos países da OCDE, o Brasil é uma das nações com menos servidores públicos em proporção à sua população.
Portanto, o problema não é o inchaço do Estado, mas seu subfinanciamento crônico. Para o cidadão mais necessitado, a promessa de eficiência da reforma se traduzirá em menos secretarias, menos foco em assistência social e saúde, e na manutenção de um sistema onde a única política pública que nunca falha é a garantia dos rendimentos do mercado financeiro.
Robson Barbosa, advogado na área do Direito Público e do Direito Sindical envolvendo servidores públicos da União, com ênfase na liberdade sindical da categoria. Professor. Doutor pela UnB. Mestre pelo IDP.
Repercussão
JOTA https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/reforma-administrativa-por-que-propostas-de-gt-podem-piorar-os-servicos-basicos